Monday, October 09, 2006

Outono


Pronto. Ela já sabe que amanhã tem mais. E ainda assim o espera pronta na calçada. Cabelos arrumados e corpo perfumado. Não com aquele perfume que lembra a outra, mas um perfume de umas flores não sei de onde, que ele diz que adora. Por que os cabelos estão prontos e o vento vem em ondas, é preciso pôr as mãos sobre a cabeça, pois o chapéu ele ordenou que não usasse. É feio!

Os pés tão inquietos, batendo a sola dos sapatos delicados no chão. E os dedos deveriam estar aparecendo, assim como o tornozelo bem desenhado, como ele sugere sempre que olha para baixo, mas estava frio e ela não queria um resfriado de presente. Só porque era outono, ainda conseguia deixar os ombros nus, mas os pés não. Os pés levam o frio pro resto do corpo.

De longe vê o sol morrendo. Angustia-se novamente. Onde ele estaria? Irrita-se. Será que sentiria outro perfume em seu pescoço? Não. Desta vez não deixaria passar. O vento trazia as folhas secas pelo chão, que batiam em suas canelas grossas. Estava machucada. Aquele leviano dilacerava seu pobre coração, julgava.

Pois seria a última vez que aquilo acontecia, prometeu. Que mentira! Por quantas vezes mais diria aquilo a si mesma? O céu iluminado por estrelas, o vento mais brando (interessante), faróis se aproximando e ela cobriu os olhos. O estalo da porta se abrindo, um beijo e mil desculpas. Olhou para trás e viu a calçada onde o esperaria pelo resto da vida.

1 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Adorei o texto, de uma delicadez que já lhe é peculiar...Deixando transparecer entre linhas o seu verdadeiro significado. Como sempre está de parabéns :)

7:49 AM  

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